Que eu não me acostume
Hoje, enquanto instalava umas prateleiras aqui, me lembrei de um texto que escrevi em maio de 2010. Não sei exatamente como uma coisa levou à outra. Mas a cabeça foi fazendo conexões.
Naquela época, durante o estágio de Psicologia Hospitalar, me deparei com uma situação de sofrimento que me marcou. Ao perceber meu estranhamento diante daquela realidade, alguém me disse que “a gente se acostuma”.
E eu me lembro de ter me incomodado profundamente com essa ideia!
Naquela noite, no silêncio do meu blog, escrevi sobre a importância de sustentar um olhar de estranhamento diante da realidade, de não naturalizar o sofrimento, de não transformar em paisagem aquilo que deveria continuar nos provocando perguntas.
Dezesseis anos depois, continuo pensando sobre essas coisas.
Mas já não sou a mesma.
Quando releio aquele texto, sinto orgulho da jovem que fui. Orgulho de perceber que, mesmo tão nova, eu já me inquietava com o sofrimento alheio, me importava com as diferenças e questionava aquilo que me parecia injusto. Mas também reconheço que algumas das minhas certezas mudaram.
Eu acreditava muito na responsabilidade individual, no esforço, na capacidade de cada pessoa de escrever a própria história. Hoje, continuo acreditando que temos participação na construção das nossas vidas, mas compreendo que nem tudo depende de nós. Existem condições sociais, oportunidades desiguais e estruturas que limitam nossas possibilidades de escolha. Nem todas as pessoas começam do mesmo lugar, e reconhecer isso não significa negar a responsabilidade individual, mas compreender que ela não explica tudo.
Talvez amadurecer também seja isso: descobrir que o mundo é muito maior do que o espaço em que aprendemos a viver.
Foi assim que algumas coisas que antes me pareciam naturais começaram a ganhar outros nomes. Fui compreendendo melhor o machismo, a misoginia, o racismo e tantas outras formas pelas quais as desigualdades atravessam nossas relações e nossas vidas.
A faculdade, a psicologia, a filosofia e o contato com outras realidades ampliaram meu olhar e me fizeram questionar explicações que, durante muito tempo, eu sequer sabia que precisava questionar.
Também fui revendo minhas convicções políticas. Cresci em um ambiente conservador, já votei em candidatos cujas posições hoje questiono e, ao longo dos anos, fui construindo outra maneira de compreender a sociedade. Não foi uma transformação repentina, tampouco uma descoberta que me tornou dona de alguma verdade. Foi um processo de aprender, questionar, reconhecer contradições e admitir que eu também poderia estar equivocada.
Talvez seja justamente isso que mais valorizo nesse percurso: a possibilidade de mudar de ideia quando encontro razões para isso.
Mas há algo curioso em ampliar o próprio olhar: nem sempre o que passamos a compreender nos oferece mais tranquilidade. Às vezes, compreender também significa perceber a dimensão de problemas que antes não conseguíamos enxergar.
E, ultimamente, tenho sentido o peso disso.
Os rumos políticos, o avanço de discursos autoritários, a intolerância às diferenças, as ameaças a direitos conquistados com tanta luta e a devastação ambiental têm dificultado minha capacidade de imaginar o futuro com esperança.
Não é apenas discordar de pessoas que pensam diferente de mim. É perceber como, em determinados debates, a divergência parece dar lugar à hostilidade, como se a existência de quem pensa ou vive de outra maneira fosse uma ameaça.
É me perguntar como podemos construir um mundo comum se perdemos, pouco a pouco, a disposição de reconhecer a humanidade de quem está do outro lado.
Tenho medo de retrocessos, de que direitos sejam retirados, de que a intolerância se torne cada vez mais naturalizada. Às vezes, tenho dificuldade até de imaginar o mundo que deixaremos para as próximas gerações.
E me pergunto como chegamos até aqui. Como pessoas instruídas conseguem sustentar determinados discursos de intolerância? Como ideias que me parecem tão preocupantes encontram tanta adesão? Como continuar acreditando na possibilidade de diálogo quando parece que, em tantos espaços, já não estamos dispostos sequer a escutar?
Não tenho respostas para tudo isso. E talvez uma das coisas que mais me angustiem seja justamente perceber que compreender o mundo não significa ter controle sobre os seus rumos.
Quando penso na Alessandra de 2010, sinto que ela era mais esperançosa. Tinha mais vitalidade, mais gana de mudar o mundo.
Sinto falta dessa disposição. Não porque acredite que ela compreendesse tudo melhor do que compreendo hoje, mas porque havia nela uma confiança na possibilidade de transformação que, em alguns momentos, parece mais difícil de encontrar nesta nova versão de mim.
Não sei exatamente quando essa esperança começou a diminuir. Talvez não tenha sido um acontecimento específico, mas o acúmulo de experiências, frustrações, preocupações e coisas que fui compreendendo ao longo do caminho.
Sei que continuo me importando. Continuo me indignando. Continuo querendo compreender o mundo e encontrar maneiras de participar da sua transformação.
Mas tenho medo de que o cansaço e a repetição das injustiças acabem fazendo aquilo que tanto me incomodava naquela época: que eu me acostume.
Em maio de 2010, escrevi sobre a importância de não naturalizar o sofrimento.
Dezesseis anos depois, essa preocupação continua aqui. Talvez com menos certezas, talvez com menos esperança, mas ainda presente.
Não sei se voltarei a ter a mesma gana de mudar o mundo. Também não sei se a esperança precisa permanecer igual para continuar existindo.
Por enquanto, sigo tentando compreender o que o tempo fez com as minhas convicções, o que o mundo tem feito com a minha esperança e o que preciso preservar para não me tornar indiferente àquilo que um dia me fez escrever.
Por enquanto, sigo tentando não me acostumar.
Mas ainda preciso descobrir como continuar me indignando sem perder a mim mesma no caminho.
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@entreestradasesilencios
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