Sobre lutos e lutas

Na semana passada eu fiz um dos atendimentos mais difíceis da minha vida... E hoje indo trabalhar, eu me peguei pensando em como a nossa profissão pode ser solitária... Pois diferente das outras, eu não posso simplesmente compartilhar de todo meu cotidiano com os que me são próximos. Mas hoje me deu vontade de fazer uma espécie de "diário de um analista".

Ali, enquanto divagava e dirigia no piloto automático, eu lembrava do último atendimento realizado no dia anterior, em meio a sessão, meu paciente olha pra mim e fala: "pra você as coisas devem ser mais fáceis, porque você já o tem o conhecimento". Pronto! A transferência estava sendo estabelecida, eu já ocupava para ele um lugar de suposto saber. 

Mas de repente, ali... ainda no trajeto da minha casa para o consultório, eu tive um insight: psicólogos são como atores, somos treinados a atuar, quando estamos diante do sujeito, nos isentamos da nossa subjetividade e passamos a ser função para o sujeito atendido.

Eu estava atuando... e desmoronava tão silenciosamente que ninguém mais percebia.

Entre lutas e lutos, as madrugadas tem sido enlouquecedoras... como tem sido difícil calar as vozes da minha cabeça. 

Meus demônios emergem, e repito para mim mesma, o que tanto repito no consultório: vai passar,  mas isso não significa que você irá esquecer ou deixar de amar, mas com o passar do tempo vamos nos habituando com a ausência das pessoas e a saudade vai deixando de doer.


A. C. S., agosto de 2021.



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